Servidor invadido? Veja o que fazer nas primeiras horas: conter sem desligar, preservar evidências, trocar credenciais, reinstalar e comunicar a ANPD.
Para que serve
Este artigo é um roteiro do que fazer com um servidor invadido nas primeiras horas depois de perceber sinais de invasão: processos desconhecidos usando 100% de CPU, usuários ou chaves SSH que ninguém criou, arquivos com extensão estranha e nota de resgate, tráfego de saída anormal ou aviso de abuso vindo de terceiros. O objetivo é conter o dano, preservar o que for preciso para entender o que aconteceu e voltar a operar com segurança.
Pré-requisitos
- Acesso ao console IPMI/iLO pela Central do Cliente (ele continua funcionando mesmo com a rede do sistema bloqueada).
- Um computador limpo, fora do servidor suspeito, para trocar senhas e guardar anotações.
- Um local externo para copiar evidências (outro servidor, storage ou disco local).
O que fazer com um servidor invadido, passo a passo
- Anote tudo desde o primeiro minuto. Registre data, hora (com fuso), o que você viu e cada ação que tomar. Isso é essencial para a investigação, para o seguro e para eventuais comunicações legais.
- Contenha sem desligar. Desligar o servidor apaga a memória RAM, onde costumam estar pistas importantes (processos, conexões, chaves). Prefira cortar a comunicação:
- Linux: pelo console IPMI/iLO, bloqueie todo tráfego exceto o seu IP, ou derrube a interface de rede (
ip link set NOME_DA_INTERFACE down). - Windows: desabilite o adaptador de rede pelo console.
- Proxmox: se o problema está numa VM, desconecte a placa de rede da VM (Hardware > Network Device > Disconnect) e mantenha a VM ligada.
- Linux: pelo console IPMI/iLO, bloqueie todo tráfego exceto o seu IP, ou derrube a interface de rede (
- Preserve evidências antes de mexer. Numa VM do Proxmox, um snapshot com memória guarda o estado completo:
Num servidor Linux, colete e copie para fora:qm snapshot 101 incidente_20261008 --vmstate 1 --description "Suspeita de invasao"
No Windows, exporte os logs de Segurança, Sistema e PowerShell (Visualizador de Eventos > Salvar Todos os Eventos Como) e liste tarefas agendadas e serviços (mkdir /root/ir && cd /root/ir date -u > data.txt ps auxwwf > processos.txt ss -tunap > conexoes.txt last -F > logins.txt 2>&1 journalctl --since "-7 days" > journal.txt cat /etc/passwd > passwd.txt for u in /root /home/*; do echo "== $u"; cat $u/.ssh/authorized_keys 2>/dev/null; done > chaves.txt crontab -l -u root > cron_root.txt 2>&1; ls -la /etc/cron* /var/spool/cron* > cron_dirs.txt 2>&1 systemctl list-units --type=service --all > servicos.txt find / -xdev -mtime -7 -type f -not -path '/proc/*' 2>/dev/null > alterados_7dias.txt tar czf /root/ir.tgz /root/ir && sha256sum /root/ir.tgzschtasks /query /fo LIST /veGet-Service). Copie para fora e anote o hash SHA-256 de cada arquivo. - Avalie o alcance. Responda: por onde entraram (SSH, RDP, aplicação web, painel)? Quais contas foram usadas? Há sinais em outras VMs ou servidores que compartilham senhas e chaves? Houve acesso a bancos de dados ou arquivos com dados pessoais? Os backups foram alcançados? Procure especialmente por eventos 4624/4625/4720/7045 no Windows e por logins de IPs desconhecidos no
laste nojournal. - Troque credenciais a partir de uma máquina limpa. Considere comprometido tudo que estava no servidor ou passou por ele: senhas de root/Administrador e de usuários, chaves SSH, senhas de bancos de dados, chaves de API, tokens de nuvem, credenciais de backup, senha da Central do Cliente (por onde se acessa o IPMI/iLO). Ative autenticação em dois fatores onde existir.
- Reinstale; não tente "limpar". Um invasor com acesso administrativo pode ter deixado portas dos fundos difíceis de achar (rootkits, serviços, tarefas, chaves). O caminho seguro é reinstalar o sistema do zero pelo console IPMI/iLO, aplicar todas as atualizações e o endurecimento básico (veja os demais artigos desta categoria) antes de reconectar à internet.
- Restaure dados de um backup anterior ao incidente e verifique se não estão adulterados. Não restaure binários, scripts ou crontabs antigos sem revisar. Corrija a falha de entrada antes de colocar o serviço no ar.
- Comunique quem precisa saber.
- Se houver dados pessoais e risco relevante aos titulares, a LGPD e a Resolução CD/ANPD nº 15/2024 exigem que o controlador comunique a ANPD e os titulares em até 3 dias úteis a partir do conhecimento do incidente. Essa comunicação é responsabilidade de quem controla os dados, ou seja, sua: a E-Consulters não administra o seu servidor nem os dados dele. Confirme prazos e obrigações com seu encarregado (DPO) e seu jurídico. Veja também o artigo «LGPD em servidor dedicado: o que é responsabilidade de quem hospeda os dados».
- Ataques originados de outras redes podem ser notificados ao responsável pela rede de origem, com cópia para o CERT.br (
cert@cert.br), incluindo logs com data, hora e fuso. - Em caso de extorsão, registre boletim de ocorrência. Autoridades como a CISA recomendam não pagar resgate: não há garantia de devolução dos dados.
Como saber se funcionou
- O servidor reinstalado não tem os usuários, chaves, serviços ou tarefas suspeitos encontrados na coleta.
ss -tunapnão mostra conexões de saída para IPs desconhecidos, e o consumo de CPU e rede voltou ao normal.- Logins antigos (senhas e chaves trocadas) são recusados.
- Você sabe explicar por onde o invasor entrou e essa falha foi corrigida.
Problemas comuns
Recebi um aviso de abuso, mas não vejo nada de estranho
Mineradores e bots costumam se esconder com nomes de processos legítimos. Compare o consumo em top com o que você espera, revise conexões de saída em ss -tunap e procure binários em /tmp, /dev/shm e /var/tmp. Responda o aviso com o que encontrou e as ações tomadas.
Os backups também foram criptografados
Verifique se existe alguma cópia offline ou imutável. Se não houver, preserve os discos para análise especializada e não reinstale por cima. Depois, reveja a estratégia (veja o artigo «Proteção contra ransomware: backup 3-2-1 com cópia imutável e teste de restauração»).
Não sei por onde entraram
Não volte ao ar com a mesma configuração. Reinstale, restrinja ao máximo os serviços expostos (SSH e RDP só por VPN ou IP fixo) e atualize todas as aplicações antes de publicar. Se o ponto de entrada foi um site, veja também o artigo «WordPress invadido: como descobrir, limpar e evitar que aconteça de novo». Para detectar uma próxima tentativa mais cedo, veja o artigo «Detecção de intrusão no servidor Linux: como usar Wazuh, AIDE e auditd».
Perguntas frequentes
Como saber se meu servidor foi invadido?
Sinais comuns: processos desconhecidos usando muita CPU, usuários ou chaves SSH que ninguém criou, arquivos com extensão estranha e nota de resgate, tráfego de saída anormal ou aviso de abuso de terceiros.
Devo desligar o servidor invadido?
Em geral, não: desligar apaga a memória RAM, onde ficam pistas importantes. Corte a rede pelo console. A exceção é ransomware criptografando dados sem que seja possível isolar a rede rapidamente.
Dá para limpar o servidor em vez de reinstalar?
Não é seguro. Um invasor com acesso administrativo pode deixar portas dos fundos difíceis de achar. Reinstale do zero, atualize e restaure os dados de um backup anterior ao incidente.
Preciso comunicar a ANPD?
Se houver dados pessoais e risco relevante aos titulares, sim: o controlador deve comunicar a ANPD e os titulares em até 3 dias úteis. Confirme com seu DPO e seu jurídico.
A E-Consulters investiga a invasão?
Não, sem o serviço de Gerenciamento a investigação e a recuperação do sistema são responsabilidade do cliente. O suporte ajuda com console IPMI/iLO, rede e hardware.
Precisa de ajuda?
Para questões de acesso ao console IPMI/iLO, rede ou hardware do servidor durante o incidente, abra um ticket pela área do cliente.
